Aprendi e compartilhei com Ferraço que bater o pé na pesquisa com o cotidiano é uma questão política e epistemológica. Para nós, o cotidiano não é apenas o locus privilegiado de uma investigação, mas um espaçotempo de inventar uma forma de fazer ciência (e talvez de fazer comunicação e educação) que não se dá a partir da clivagem entre sujeito e objeto, mas que se faz em relação com sujeitos, objetos, intensidades, fragmentos, imagens, sensibilidades, memórias, que se transformam mutuamente no decorrer da caminhada, incluindo-se aí, principalmente, o próprio pesquisador.
Mas, o que é, afinal, o cotidiano? Ou melhor, o que não é cotidiano?
Como locus da investigação, o cotidiano pode ser pensado como o lugar da vida comum, das rotinas, do “comezinho”[CS1] , das banalidades, que pra nós têm sentido de realidade. A vida ordinária a princípio nos parece simples e trivial, mas em sua complexidade nos permite vivenciar, para além do reconhecimento do que imaginamos já estarmos acostumados, variadas e inusitadas experiências, encontros, combinações e invenções que nos constituem como sujeitos sociais, ao mesmo tempo nômades e localizados no tempoespaço.
Nossa vida cotidiana é café com leite, feijão com arroz, pão com manteiga, goiabada com queijo. Nossa vida cotidiana parece ser marcada pelo com, para além do ou e do e. Trata-se, portanto, de tudo aquilo que é tecido nas redes de relações com todos os outros: as pessoas, os objetos, as normas, as imagens, as memórias, as sensações. Nosso cotidiano é, ao mesmo tempo, produto e produtor do que nos tornamos em determinado momento.
Admitir que na sua simplicidade o cotidiano é, ao mesmo tempo, complexo, coloca para nós pesquisadores a necessidade de inverter todo o processo aprendido, como sugere Nilda Alves:
"Ao invés de dividir, para analisar, será preciso multiplicar – as teorias, os fatos, as fontes, os métodos, etc. Mas que isso, será necessário entre eles estabelecer redes de múltiplas e também complexas relações".
Vamos nos entregar então à força dos movimentos e nos deixar arrastar pelas redes cotidianas de saberesfazeres, que, como nos ensinou Ferraço, produzem danças e deslizamentos de significados impossíveis de serem previstos ou controlados. Como conseqüência dessa impossibilidade, diz ele, temos que considerar a diversidade de possibilidades para o conhecimento.
[CS1] Na gíria carioca: coisas óbvias, sem importância.
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