A realidade também emburrece
Arnaldo Antunes
Folha de São Paulo, 28/10/85
Notícias Populares, 18/06/85: "Titãs acusam TV de burrificar as pessoas em seu novo disco".
O poeta Waly Salomão, no release desse disco: "... acontece que os Titãs são inteligentes, irônicos demais para encamparem a visão do fenômeno televisivo como encarnação do mal, a televisão enquanto Hidra de Lerna eletrônica".
Um jornal publicou, a partir do release: "... é uma visão do fenômeno televisivo como encarnação do mal, à base de muito humor...". Acontece. Há quem ouça mal e há quem entenda mal o que ouve.
Mas normalmente os burros tentam esconder a própria burrice — o que os diferencia dos chatos, que ostentam inevitavelmente a sua condição — seja na TV, nas páginas dos jornais ou na convivência diária.
A burrice cantada na primeira pessoa é, ao menos, diferente.
Tudo bem. "Televisão" (a música) soa claramente nas FMs, com sua burrice = anti-imunidade. Agora eu quero falar mais da Televisão (o aparelho), e desse preconceito-preservativo que a encara como o Monstro da Massificação.
Uma vez eu estava assistindo uma dessas novelas rurais da Globo, do horário das seis, na tevê coletiva de uma fazenda. Um dos colonos comentou que não gostava desse tipo de novela, porque caipira ele já estava cansado de ver ali todo dia. Ele gostava, sim, de novela que mostra as pessoas ricas da cidade. Já outros curtiam se identificar com os caipiras da novela. Outros, outras coisas.
A atração pela diferença, a busca de identidade, a indiferença, são apenas algumas das formas de se relacionar com a televisão. O cara que desliga a TV e sobe para o quarto de dormir não pode ver do mesmo jeito que o cara que acolhe a TV em seu quarto e dorme com ela ligada. Mas, na pior cegueira, todos os gatos são pardos. Titãs e Dominó.
A crítica da televisão que monstrifica o seu aspecto massificante exclui um elemento fundamental do processo, que é o telespectador. Se não exclui, menospreza sua capacidade de manipular o aparelho.
O cuidado em não se promiscuir com os raios catódico-emburrecedores é gerado pela preguiça de cavar uma maneira própria de se relacionar com o objeto. Mais cômodo é afastar qualquer possibilidade de contaminação. Mais asséptico. As pessoas se preservam do risco de envolvimento com a mediocridade televisada para repetirem a mediocridade universitária. Não podem apreciar a vertigem de um anúncio de sabonete, a graça patética de uma imagem da novela sem o som, ou a perda de tempo (Sombra Monstruosa do Monstro) de assistir um desenho animado em pleno horário comercial da segunda-feira.
Sabe-se que a televisão trabalha com a repetição de formas já assimiladas, com padrões estáveis e um baixo grau de novidade ou estranhamento. O tratamento da linguagem que exige um esforço de compreensão formal um pouco maior, para a comunicação de massa, é ineficiente. A renovação técnica é uma exigência constante, mas a linguagem tartarugueia (quando não carangueja). Se por um lado isso rebaixa seu valor criativo, por outro há a vantagem da televisão se tornar um objeto totalmente incorporado ao cotidiano — como uma janela.
Você olha a janela todo dia. O que você aprende do que o seu olho apreende? Do que a sua antena capta, o que você captura?
Um exercício interessante: inverter o atrativo da televisão. Assistir qualquer coisa tentando não compreender nada. Você vê as cenas, a seqüência das cenas, as pessoas, o que as pessoas fazem; ouve as vozes, a música, os ruídos. Mas você não entende o que está acontecendo ali. Cria uma estranheza, uma dificuldade intencional de seguir aquilo que se quer mostrar. Olhe por um momento a cara da sua mãe procurando não reconhecê-la.
Outro: ver televisão, apenas. Ver televisão com os olhos puros, entregando-se à sua banalidade. Esse exercício funciona como um aprimoramento da facilidade, da tolerância, da maleabilidade da mente e do espírito. Aula de culinária às onze da manhã.
Muita gente faz coisas escutando música. Pode-se também fazer coisas vendo televisão. Ela fica ligada enquanto você faz outra coisa qualquer. As vezes você olha para ela e se desconcentra daquilo que estava fazendo.
Com o advento do controle remoto, inauguraram-se novas possibilidades de brincar com a televisão. A simultaneidade dos canais se tornou mais tentadora. As interrupções, mais freqüentes. Flashes.
Eu quero é mais: tevês de bolso, tevês descartáveis, telas circulares, novas possibilidades de alteração da imagem e do som, maior número de emissoras, programação constante sem interrupção de madrugada, salas com muitos aparelhos, para ligá-los ao mesmo tempo em canais diferentes — como em O Homem Que Caiu na Terra, ou como os mendigos que assistem as pilhas de televisores ligados nas vitrines das lojas.
A televisão ensina muitas coisas; até mesmo no telecurso.
Não adianta conversar com a sua avó sobre os novos modelos de computador. Você vai ter que falar de outras coisas (ou falar de outro jeito sobre os computadores). Se você não se permite isso, vai ficar conversando só com o pessoal da IBM. Ou com os próprios computadores.
Agora você pode querer aprender outras coisas. Você olha a janela para quê?
40 Escritos
São Paulo: Iliminuras, 2000
quarta-feira, 31 de outubro de 2007
Ler Arnaldo Antunes e entender Homi Bhabha
Riquezas são diferenças
Folha de São Paulo, 07/01/92
Muita estupidez e preconceito se têm lido nas páginas dos jornais, seja na opinião dos próprios jornalistas, seja na declaração de pessoas do meio artístico musical, tendo por objeto a cor da pele de Michael Jackson.
Não quero falar aqui da sua música, que continua exercendo o caminho natural de sua genialidade; nem do espaço poderoso que ela ocupa no mundo todo. Quero falar da clareza de Michael Jackson. Mesmo que para isso eu tenha de aceitar a condição da imprensa em geral, que tomou essa questão como um escudo para não comentar com o devido respeito seu último disco.
Michael Jackson teve a pele negra. Ficou mulato em Thriller, clareou mais em Bad e agora aparece completamente branco em Dangerous. O mal-estar que isso vem causando é assustador, nessa beirada do ano 2000. Que ele "negou a sua raça", "se corrompeu", "virou um monstro", entre ofensas piores.
O pior ataque dessa onda se leu numa matéria assinada por Sérgio Sá Leitão, na seção denominada "Fique por dentro" (?), no Folhateen de 9/12/91, que, além de desprezar sem nenhum fundamento Dangerous ("O fundamental em Michael Jackson já não é mais a música — como o era na época de Thriller, seu álbum-emblema") e lamentar a mudança de cor enquanto perda de identidade ("Com sua identidade diluída, falta também a Michael Jackson a legitimidade indispensável a qualquer astro da cultura pop"), começa (na manchete) e termina (na conclusão da matéria) com uma frase de efeito de uma agressividade despropositada: "Michael Jackson é o eunuco do pop". Tendo-se em conta a potência que ele representa, não apenas em seu som, mas também como fenômeno de massas no planeta, tal inversão só pode ser interpretada como fruto de ódio. Parece a indignação de um membro da Ku Klux Klan defendendo a pureza racial ameaçada por esse branco que não nasceu branco.
Brancos sempre puderam parecer mulatos, bronzear-se ao sol ou em lâmpadas específicas para esse fim, fazer permanente para endurecer os cabelos. Tudo isso visto com naturalidade e simpatia. Tatuagem, que é uma técnica predominantemente usada por brancos, pode. Até mesmo aquela caricatura do Al Johnson era vista com graça. Agora, o negro Michael Jackson entregar seu corpo à transcendência da barreira racial desperta revolta, reações de protesto e aversão.
O espaço da ficção é permissivo. Todo mundo acha bacana Raul Seixas haver cantado "Eu prefiro ser essa metamorfose ambulante", ou haver existido uma banda chamada "Mutantes". Há um consenso na aceitação da promiscuidade racial de Macunaíma, como traço característico de nossa identidade antropológica. Agora, quando adentramos o campo da vida real as máscaras moralistas, racistas, preservacionistas da estagnação se mostram, contra a liberdade individual de se fazer o que quiser da própria pele.
É que Michael Jackson é um Macunaíma ao avesso. Se o anti-herói de Mário de Andrade faz de si a parábola da gênese das diferenças raciais no espaço ficcional, Michael Jackson representa, em carne e osso, a abolição dessas fronteiras. Mas parece que, mais de cem anos depois, o Brasil ainda não está preparado para aceitar a Abolição.
Os negros que estão condenando a mutação de Michael Jackson, insinuando ser ela fruto de inveja de uma suposta condição dos brancos, acabam na verdade chegando a um veredito semelhante ao do racismo branco que diz: "Como esse negro se atreve a usar a minha cor em sua pele?"
Michael Jackson continua cantando com o mesmo swing de quando tinha a pele preta, e dançando cada vez mais lindamente aquela dança que influenciou milhares de negros no mundo inteiro. Ele ostenta a pele clara como quem diz "eu posso". E canta: "I'm not going to spend my life being a color". E faz de seu corpo a prova de que a questão racial vai muito além da cor da pele.
O corpo é para usar. O corpo é para ser usado. Michael Jackson está colocando seu corpo a serviço de um tempo em que a pessoa valha antes das raças, e o planeta antes das nações. Não se trata de extinguir as diferenças, mas de fundar radicalmente a possibilidade de trânsito entre elas. A miscigenação que se fez aqui (nesse país onde todos somos um pouco mulatos ou mamelucos), diacronicamente, durante séculos, faz-se sincronicamente nele.
Michael Jackson é preto e é branco. Não fala em nome de uma raça ou casta, mas encarna em si a diferença. Não é mais americano porque é do mundo todo ("Protection/for gangs, clubs,/ and nations/ causing grief in/ human relations/ It's a turf war/ On a global scale/ I'd rather hear both sides/ of the tale", canta em Black or White). O incômodo está justamente nesse exercício de liberdade. Ele não precisa explicar nada. As respostas estão todas na sua cara. Ou naquelas caras tão diferentes se transformando umas nas outras, no clip de Black or White.
"...Eu me tomo as estrelas e a lua. Eu me tomo o amante e o amado. Eu me tomo o vencedor e o vencido. Eu me tomo o senhor e o escravo. Eu me tomo o cantor e a canção. Eu me tomo o conhecedor e o conhecido... Eu continuo dançando... e dançando... e dançando, até que haja apenas... a dança" (Michael Jackson, em The Dance).
Arnaldo Antunes
40 Escritos
organização: João Bandeira
São Paulo: Iluminuras,2000
Folha de São Paulo, 07/01/92
Muita estupidez e preconceito se têm lido nas páginas dos jornais, seja na opinião dos próprios jornalistas, seja na declaração de pessoas do meio artístico musical, tendo por objeto a cor da pele de Michael Jackson.
Não quero falar aqui da sua música, que continua exercendo o caminho natural de sua genialidade; nem do espaço poderoso que ela ocupa no mundo todo. Quero falar da clareza de Michael Jackson. Mesmo que para isso eu tenha de aceitar a condição da imprensa em geral, que tomou essa questão como um escudo para não comentar com o devido respeito seu último disco.
Michael Jackson teve a pele negra. Ficou mulato em Thriller, clareou mais em Bad e agora aparece completamente branco em Dangerous. O mal-estar que isso vem causando é assustador, nessa beirada do ano 2000. Que ele "negou a sua raça", "se corrompeu", "virou um monstro", entre ofensas piores.
O pior ataque dessa onda se leu numa matéria assinada por Sérgio Sá Leitão, na seção denominada "Fique por dentro" (?), no Folhateen de 9/12/91, que, além de desprezar sem nenhum fundamento Dangerous ("O fundamental em Michael Jackson já não é mais a música — como o era na época de Thriller, seu álbum-emblema") e lamentar a mudança de cor enquanto perda de identidade ("Com sua identidade diluída, falta também a Michael Jackson a legitimidade indispensável a qualquer astro da cultura pop"), começa (na manchete) e termina (na conclusão da matéria) com uma frase de efeito de uma agressividade despropositada: "Michael Jackson é o eunuco do pop". Tendo-se em conta a potência que ele representa, não apenas em seu som, mas também como fenômeno de massas no planeta, tal inversão só pode ser interpretada como fruto de ódio. Parece a indignação de um membro da Ku Klux Klan defendendo a pureza racial ameaçada por esse branco que não nasceu branco.
Brancos sempre puderam parecer mulatos, bronzear-se ao sol ou em lâmpadas específicas para esse fim, fazer permanente para endurecer os cabelos. Tudo isso visto com naturalidade e simpatia. Tatuagem, que é uma técnica predominantemente usada por brancos, pode. Até mesmo aquela caricatura do Al Johnson era vista com graça. Agora, o negro Michael Jackson entregar seu corpo à transcendência da barreira racial desperta revolta, reações de protesto e aversão.
O espaço da ficção é permissivo. Todo mundo acha bacana Raul Seixas haver cantado "Eu prefiro ser essa metamorfose ambulante", ou haver existido uma banda chamada "Mutantes". Há um consenso na aceitação da promiscuidade racial de Macunaíma, como traço característico de nossa identidade antropológica. Agora, quando adentramos o campo da vida real as máscaras moralistas, racistas, preservacionistas da estagnação se mostram, contra a liberdade individual de se fazer o que quiser da própria pele.
É que Michael Jackson é um Macunaíma ao avesso. Se o anti-herói de Mário de Andrade faz de si a parábola da gênese das diferenças raciais no espaço ficcional, Michael Jackson representa, em carne e osso, a abolição dessas fronteiras. Mas parece que, mais de cem anos depois, o Brasil ainda não está preparado para aceitar a Abolição.
Os negros que estão condenando a mutação de Michael Jackson, insinuando ser ela fruto de inveja de uma suposta condição dos brancos, acabam na verdade chegando a um veredito semelhante ao do racismo branco que diz: "Como esse negro se atreve a usar a minha cor em sua pele?"
Michael Jackson continua cantando com o mesmo swing de quando tinha a pele preta, e dançando cada vez mais lindamente aquela dança que influenciou milhares de negros no mundo inteiro. Ele ostenta a pele clara como quem diz "eu posso". E canta: "I'm not going to spend my life being a color". E faz de seu corpo a prova de que a questão racial vai muito além da cor da pele.
O corpo é para usar. O corpo é para ser usado. Michael Jackson está colocando seu corpo a serviço de um tempo em que a pessoa valha antes das raças, e o planeta antes das nações. Não se trata de extinguir as diferenças, mas de fundar radicalmente a possibilidade de trânsito entre elas. A miscigenação que se fez aqui (nesse país onde todos somos um pouco mulatos ou mamelucos), diacronicamente, durante séculos, faz-se sincronicamente nele.
Michael Jackson é preto e é branco. Não fala em nome de uma raça ou casta, mas encarna em si a diferença. Não é mais americano porque é do mundo todo ("Protection/for gangs, clubs,/ and nations/ causing grief in/ human relations/ It's a turf war/ On a global scale/ I'd rather hear both sides/ of the tale", canta em Black or White). O incômodo está justamente nesse exercício de liberdade. Ele não precisa explicar nada. As respostas estão todas na sua cara. Ou naquelas caras tão diferentes se transformando umas nas outras, no clip de Black or White.
"...Eu me tomo as estrelas e a lua. Eu me tomo o amante e o amado. Eu me tomo o vencedor e o vencido. Eu me tomo o senhor e o escravo. Eu me tomo o cantor e a canção. Eu me tomo o conhecedor e o conhecido... Eu continuo dançando... e dançando... e dançando, até que haja apenas... a dança" (Michael Jackson, em The Dance).
Arnaldo Antunes
40 Escritos
organização: João Bandeira
São Paulo: Iluminuras,2000
sábado, 27 de outubro de 2007
Vida cotidiana
PERSPECTIVAS DA TRANSFORMAÇÃO CONSCIENTE DA VIDA QUOTIDIANA
Guy Debord
Estudar a vida quotidiana seria uma empresa perfeitamente ridícula e, além disso, condenada desde o princípio a perder de vista seu próprio objeto, se não se propusesse explicitamente o estudo dessa vida quotidiana com o fim de transformá-la. A própria conferência, a exposição de determinadas considerações intelectuais diante de um auditório, como forma extremamente banal de relações humanas em um setor bastante amplo da sociedade, também ela se insere na crítica da vida quotidiana.
Os sociólogos, por exemplo, tendem a se separar da vida quotidiana e lançar paras as esferas chamadas superiores tudo que lhes acontece a cada instante. É o hábito, começando pelo de manejar certos conceitos profissionais - produzidos pela divisão do trabalho - que sob todas as suas formas mascara assim a realidade por trás das condições privilegiadas.
Por conseguinte, é oportuno mostrar que se deslocamos ligeiramente as fórmulas correntes descobrimos aqui mesmo a vida quotidiana. (...)
Existe uma vontade manifesta de abrigar-se por baixo de uma formação do pensamento baseada na separação artificial de campos fragmentários, a fim de recusar o conceito inútil, vulgar e nojento de "vida quotidiana". Semelhante conceito encobre um resíduo da realidade catalogada e classificada com o qual alguns não desejam enfrentar, pois constitui, ao mesmo tempo, o ponto de vista da totalidade e implicaria a necessidade de um juízo global, de uma política. Certos intelectuais parecem se vangloriar assim de uma ilusória participação pessoal no setor dominante da sociedade, através da possessão de uma ou mais especializações culturais, o que os situa na melhor posição para se dar conta de que o conjunto desta cultura dominante está sensivelmente desgastado. Mas qualquer que seja o juízo que se pronuncie sobre a coerência dessa cultura ou sobre o interesse de seus aspectos, a alienação que ela impôs aos intelectuais em questão consiste em fazê-los crer, desde sua privilegiada posição sociológica, que se encontram completamente fora da vida quotidiana de qualquer povo, ou situados num lugar por demais elevado na escala dos poderes humanos, como se eles mesmos não fossem igualmente pobres.
Não há dúvida de que as atividades especializadas têm uma existência; em uma dada época adquirem inclusive um uso geral que deve reconhecer-se sempre de uma forma desmistificada. A vida quotidiana não o é totalmente. Certamente, existe uma osmose entre esta e as atividades especializadas, e até o extremo que, desde determinado ponto de vista, nunca nos encontramos fora da vida quotidiana. Mas caso se recorra à fácil imagem de uma representação espacial das atividades, a vida quotidiana deve se situar, além do mais, no centro de tudo. Cada projeto em parte e cada realização tomam dela sua nova significação e sobre ela a projetam. A vida quotidiana é a medida de todas as coisas: do cumprimento, ou melhor, do descumprimento das relações humanas, do uso do tempo vivido, das buscas da arte, da política revolucionária. (...)
Considero que o termo "crítica da vida quotidiana" também poderia ou deveria ser entendido com a seguinte inversão: a crítica que a vida quotidiana exercerá soberanamente a tudo o que lhe seja exterior.
Esta exposição foi apresentada em 17 de maio de 1961 em fita magnética diante do Grupo de Investigações sobre a vida quotidiana, reunido por H. Lefebrve no Centre d'études sociologiques del C.N.R.S.. Foi publicado no número 6 de Internacionalle Situationiste (agosto-1961). Tradução para o espanhol de Eduardo Subirats - publicada no caderno Textos situacionistas sobre arte e urbanismo (Anagrama, 1973) e na internet pelo Archivo Situacionista Hispano. Traduzido do espanhol.
Para ler o texto completo:
http://www.rizoma.net/interna.php?id=146&secao=potlatch
Guy Debord
Estudar a vida quotidiana seria uma empresa perfeitamente ridícula e, além disso, condenada desde o princípio a perder de vista seu próprio objeto, se não se propusesse explicitamente o estudo dessa vida quotidiana com o fim de transformá-la. A própria conferência, a exposição de determinadas considerações intelectuais diante de um auditório, como forma extremamente banal de relações humanas em um setor bastante amplo da sociedade, também ela se insere na crítica da vida quotidiana.
Os sociólogos, por exemplo, tendem a se separar da vida quotidiana e lançar paras as esferas chamadas superiores tudo que lhes acontece a cada instante. É o hábito, começando pelo de manejar certos conceitos profissionais - produzidos pela divisão do trabalho - que sob todas as suas formas mascara assim a realidade por trás das condições privilegiadas.
Por conseguinte, é oportuno mostrar que se deslocamos ligeiramente as fórmulas correntes descobrimos aqui mesmo a vida quotidiana. (...)
Existe uma vontade manifesta de abrigar-se por baixo de uma formação do pensamento baseada na separação artificial de campos fragmentários, a fim de recusar o conceito inútil, vulgar e nojento de "vida quotidiana". Semelhante conceito encobre um resíduo da realidade catalogada e classificada com o qual alguns não desejam enfrentar, pois constitui, ao mesmo tempo, o ponto de vista da totalidade e implicaria a necessidade de um juízo global, de uma política. Certos intelectuais parecem se vangloriar assim de uma ilusória participação pessoal no setor dominante da sociedade, através da possessão de uma ou mais especializações culturais, o que os situa na melhor posição para se dar conta de que o conjunto desta cultura dominante está sensivelmente desgastado. Mas qualquer que seja o juízo que se pronuncie sobre a coerência dessa cultura ou sobre o interesse de seus aspectos, a alienação que ela impôs aos intelectuais em questão consiste em fazê-los crer, desde sua privilegiada posição sociológica, que se encontram completamente fora da vida quotidiana de qualquer povo, ou situados num lugar por demais elevado na escala dos poderes humanos, como se eles mesmos não fossem igualmente pobres.
Não há dúvida de que as atividades especializadas têm uma existência; em uma dada época adquirem inclusive um uso geral que deve reconhecer-se sempre de uma forma desmistificada. A vida quotidiana não o é totalmente. Certamente, existe uma osmose entre esta e as atividades especializadas, e até o extremo que, desde determinado ponto de vista, nunca nos encontramos fora da vida quotidiana. Mas caso se recorra à fácil imagem de uma representação espacial das atividades, a vida quotidiana deve se situar, além do mais, no centro de tudo. Cada projeto em parte e cada realização tomam dela sua nova significação e sobre ela a projetam. A vida quotidiana é a medida de todas as coisas: do cumprimento, ou melhor, do descumprimento das relações humanas, do uso do tempo vivido, das buscas da arte, da política revolucionária. (...)
Considero que o termo "crítica da vida quotidiana" também poderia ou deveria ser entendido com a seguinte inversão: a crítica que a vida quotidiana exercerá soberanamente a tudo o que lhe seja exterior.
Esta exposição foi apresentada em 17 de maio de 1961 em fita magnética diante do Grupo de Investigações sobre a vida quotidiana, reunido por H. Lefebrve no Centre d'études sociologiques del C.N.R.S.. Foi publicado no número 6 de Internacionalle Situationiste (agosto-1961). Tradução para o espanhol de Eduardo Subirats - publicada no caderno Textos situacionistas sobre arte e urbanismo (Anagrama, 1973) e na internet pelo Archivo Situacionista Hispano. Traduzido do espanhol.
Para ler o texto completo:
http://www.rizoma.net/interna.php?id=146&secao=potlatch
sexta-feira, 26 de outubro de 2007
Ceiça, que mistura deliciosa...
Acho que Nilda tem razão... As pesquisas começam a fazer sentido quando começamos a estabelecer redes e nos colocamos mergulhados na vida da escola. Redes de afeto, amizade, conhecimento, sentido, humores, sabores, cumplicidades... Que bom (des) cobrir a escola. Poder estabelecer novos/outros contatos, reinventá-la, produzir sentidos, se emocionar, se emaranhar, se deixar tocar... Deixar a vida nos levar...
Nem tão longe assim
Tânia, não se desespere. Esses desenraizamentos, desterritorializações e deslizamentos, não sei se felizmente ou infelizmente, não nos levam tão longe assim. Depois de alguns pequenos vôos, rodopios e escorregões, a gente tem sensação de estar ainda no mesmo lugar, mesmo que levemente modificado. Não sei se é possível e necessário ir além disso.
Observe essa letra de uma canção dos Titãs. Me parece uma crítica irônica a esses tempos que estamos chamando de pós-modernos. Talvez a gente possa transpor a crítica irônica da cena musical para a cena cultural e para a cena científica e, assim, perceber que em alguns momentos precisamos desacelerar e ter mais tempo para absorver ou rejeitar as idéias, os pensamentos, as atitudes, as crenças e os valores que estão todo o tempo sendo lançados.
A Melhor Banda De Todos Os Tempos Da ÚLtima Semana
Titãs
Composição: Branco Mello/ Sérgio Britto
Quinze minutos de fama
Mais um pros comerciais,
Quinze minutos de fama
Depois descanse em paz.
O gênio da última hora,
É o idiota do ano seguinte
O último novo-rico,
É o mais novo pedinte
A melhor banda de todos os tempos da última semana
O melhor disco brasileiro de música americana
O melhor disco dos últimos anos de sucessos do passado
O maior sucesso de todos os tempos entre os dez maiores fracassos
Não importa contradição
O que importa é televisão
Dizem que não há nada que você não se acostume
Cala a boca e aumenta o volume então
As músicas mais pedidas
Os discos que vendem mais,
As novidades antigas
Nas páginas do jornais
Um idiota em inglês,
Se é um idiota, é bem menos que nós
Um idiota em inglês
É bem melhor do que eu e vocês
A melhor banda de todos os tempos da última semana
O melhor disco brasileiro de música americana
O melhor disco dos últimos anos de sucessos do passado
O maior sucesso de todos os tempos entre os dez maiores fracassos
Não importa contradição
O que importa é televisão
Dizem que não há nada que você não se acostume
Cala a boca e aumenta o volume então
Os bons meninos de hoje
Eram os rebeldes da outra estação
O ilustre desconhecido
É o novo ídolo do próximo verão
A melhor banda de todos os tempos da última semana
O melhor disco brasileiro de música americana
O melhor disco dos últimos anos de sucessos do passado
O maior sucesso de todos os tempos entre os dez maiores fracassos
Observe essa letra de uma canção dos Titãs. Me parece uma crítica irônica a esses tempos que estamos chamando de pós-modernos. Talvez a gente possa transpor a crítica irônica da cena musical para a cena cultural e para a cena científica e, assim, perceber que em alguns momentos precisamos desacelerar e ter mais tempo para absorver ou rejeitar as idéias, os pensamentos, as atitudes, as crenças e os valores que estão todo o tempo sendo lançados.
A Melhor Banda De Todos Os Tempos Da ÚLtima Semana
Titãs
Composição: Branco Mello/ Sérgio Britto
Quinze minutos de fama
Mais um pros comerciais,
Quinze minutos de fama
Depois descanse em paz.
O gênio da última hora,
É o idiota do ano seguinte
O último novo-rico,
É o mais novo pedinte
A melhor banda de todos os tempos da última semana
O melhor disco brasileiro de música americana
O melhor disco dos últimos anos de sucessos do passado
O maior sucesso de todos os tempos entre os dez maiores fracassos
Não importa contradição
O que importa é televisão
Dizem que não há nada que você não se acostume
Cala a boca e aumenta o volume então
As músicas mais pedidas
Os discos que vendem mais,
As novidades antigas
Nas páginas do jornais
Um idiota em inglês,
Se é um idiota, é bem menos que nós
Um idiota em inglês
É bem melhor do que eu e vocês
A melhor banda de todos os tempos da última semana
O melhor disco brasileiro de música americana
O melhor disco dos últimos anos de sucessos do passado
O maior sucesso de todos os tempos entre os dez maiores fracassos
Não importa contradição
O que importa é televisão
Dizem que não há nada que você não se acostume
Cala a boca e aumenta o volume então
Os bons meninos de hoje
Eram os rebeldes da outra estação
O ilustre desconhecido
É o novo ídolo do próximo verão
A melhor banda de todos os tempos da última semana
O melhor disco brasileiro de música americana
O melhor disco dos últimos anos de sucessos do passado
O maior sucesso de todos os tempos entre os dez maiores fracassos
A ventania
Assovia o vento dentro de mim.
Estou despido. Dono de nada, dono de ninguém, nem mesmo dono de minhas certezas, sou minha cara contra o vento, a contravento, e sou o vento que bate em minha cara.
Eduardo Galeano
Estou despido. Dono de nada, dono de ninguém, nem mesmo dono de minhas certezas, sou minha cara contra o vento, a contravento, e sou o vento que bate em minha cara.
Eduardo Galeano
Devaneios... Divagações... Deslizamentos...
Perdi o sono... se é que eu o tinha encontrado...
Devaneios...
Divagações...
Deslizamentos...
Ssssssooooccorrroooo!!!!!
Devaneios...
Estou iniciando na leitura de Foucault, Deleuze, Derrida... Tudo é novo, estranho, confuso para mim... Estou me sentindo como uma estrangeira nômade... não sei para onde eu vou _ se é que é preciso ter algum lugar para ir... Não!!! Acho que é preciso deixar-me levar pelas escutas: "O leitor de Derrida deve saber escutar para deixar ressoar suas infinitas questões" (Skliar, 2005). Deveria eu deixar-me levar em peregrinações de questionamentos, inquietações, rupturas, imprevistos?
Divagações...
Tradução... Desconstrução... Estética da existência... Acontecimentos... Différance... Evenemencialismo... Cuidado de si... Aonde estou no meio disso tudo???? Não consigo me achar... Enquanto isso devoro um pote de gelatina... Estou ansiosa... Aliás, é preciso encontrar-me, ou devo ir cada vez mais longe de mim?
Deslizamentos...
Ssssssooooccorrroooo!!!!!
quinta-feira, 25 de outubro de 2007
A arte da amizade: alguns instantâneos na UERJ
Após nossas "trocas de figurinhs e abobrinhas" na cantina da UERJ em que ouvimos, falamos, sentimos, rimos, contamos causos e histórias desordenadas, caóticas, engraçadas, tenebrosas, enfim, onde tecemos experiências e acontecimentos nos interstícios de nossas vidas enredadas e emboladas com tantas outras, comecei a pensar na "arte da amizade".
Segundo Ortega (1999), "nos últimos anos, apareceram várias tentativas de pensar a amizade, por parte de Foucault, Deleuze, Guattari e Derrida, constituindo-se hoje em dia, em uma das principais tarefas filosóficas".
Falar de amizade, diz Ortega, refraseando Foucault na terminologia de Deleuze, "é falar de multiplicidade, intensidade, experimentação, desterritorialização. Relação, portanto, provisória e aberta a novos posicionamentos do sujeito. Ser amigo significa não ter lugar social marcado nem objetivos fixos, quando se trata de buscar satisfação pessoal ou perseguir ideais coletivos".
Em seu livro "Amizade e estética da existência em Foucault", Ortega desenvolve uma ontologia da amizade, "[...] ao lado da tentativa de realçar a dimensão agonística e inter-subjetiva do cuidado de si relacionando-a com a análise da amizade. A amizade é um conceito-chave na obra foucaultiana , sendo também um elemento de ligação entre a elaboração individual e a subjetivação coletiva. Ela é, para o pensador francês, um convite, um apelo à experimentação de novos estilos de vida e comunidade".
Que possamos, então , nessa "forma de subjetivação coletiva", nessa "forma de vida" metamorfosearmos em um infinito e intenso devir que nos faça deslizar entre as margens, dobras, interstícios... Parafraseando Derrida, transbordar do que menos nos falta e carecer do que nos sobra...
ORTEGA, F. Amizade e existência em Foucault. Rio de Janeiro: Edições Graal Ltda., 1999.
Parodiando Deleuze
Alex, Deleuze rouba conceitos e eu estou roubando todas as suas fotos lindíssimas para usar nas minhas aulas. Bota mais...
Bjus
Bjus
Elas estão lindas!
Estilo que se inventa entre o recomendado e o possível, entre uma e outra, no encontro e no desejo de ser outro, é estética de existência.
Uniforme:
Felicidade
Ver com as mãos
Espaços de liberdade
Brincadeiras
Reevocar o soma infantil
Para Peter Pál Pelbart, Agamben imagina um infante "totipotente, a ponto de declinar qualquer destino específico e qualquer ambiente determinado, para ater-se unicamente a sua própria imaturidade e a sua própria privação". E, "este autêntico reevocar o soma infantil da humanidade se chama: o pensamento, isto é, a política".
Ainda para Perlbart, "se a reflexão sobre a linguagem tem na obra de Agamben papel tão relevante, é porque um outro "uso" desse Comum (NEGRI & HARDT) poderia restituir à subjetividade essa dimensão de "infância", contingência, possibilidade, revelando a tarefa eminentemente política aí embutida (...)".
Artigo completohttp://www.rizoma.net/interna.php?id=285&secao=artefato:
Ainda para Perlbart, "se a reflexão sobre a linguagem tem na obra de Agamben papel tão relevante, é porque um outro "uso" desse Comum (NEGRI & HARDT) poderia restituir à subjetividade essa dimensão de "infância", contingência, possibilidade, revelando a tarefa eminentemente política aí embutida (...)".
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quarta-feira, 24 de outubro de 2007
Desassossego
E assim sou, fútil e sensível, capaz de impulsos violentos e absorventes, maus e bons, nobres e vis, mas nunca de um sentimento que subsista, nunca de uma emoção que continue, e entre para a substância da alma. Tudo em mim é a tendência para ser a seguir outra coisa; uma impaciência da alma consigo mesma, como uma criança inoportuna; um desassossego sempre crescente e igual. Tudo me interessa e nada me prende.
Fernando Pessoa
Livro do Desassossego.
São Paulo: Companhia das, 2006 - p. 49
Fernando Pessoa
Livro do Desassossego.
São Paulo: Companhia das, 2006 - p. 49
Salve Regina!
Que venha o porvir. Que o devir criança nos acometa.
E que, além da criança que nasce e nos põe em xeque, proliferem livremente também as crianças que nascem em nós todos os dias. Que elas nos tomem de modo que nos levem a problematizar o mundo com "questões menores", nos arrancando das nossas certezas, nos desviando dos lugares estabelecidos e nos livrando da mesmice. Amém!
E que, além da criança que nasce e nos põe em xeque, proliferem livremente também as crianças que nascem em nós todos os dias. Que elas nos tomem de modo que nos levem a problematizar o mundo com "questões menores", nos arrancando das nossas certezas, nos desviando dos lugares estabelecidos e nos livrando da mesmice. Amém!
A Infância como o outro que nasce e que nos coloca em questão.
Enquanto relação com a alteridade daquele que nasce, a educação não é apenas o resultado da segurança de nosso saber e da arrogância do nosso, mas ela implica, também, nossa incerteza, nossa inquietude e nosso autoquestionamento. Só assim a educação abre um porvir indeterminado, situado sempre além de todo poder sobre o possível, literalmente infinito. E um porvir infinito implica, justamente, a infinitude da descontinuidade e da diferença, um porvir irredutível à reprodução do Mesmo (LARROSA, 2006, p. 16).
terça-feira, 23 de outubro de 2007
segunda-feira, 22 de outubro de 2007
O que é a multidão?
Entrevista com Negri e Hardt por Nicholas Brown e Imre SzemanporPara nós, o conceito de multidão é ao mesmo tempo o grande atrativo de Império e também seu maior problema. Por isso encaramos Multidão com tanta expectativa. Nas primeiras páginas do prefácio, vocês colocam em primeiro plano o que consideramos a principal contradição do conceito de multidão. De um lado, podemos notar o “projeto da multidão”, a construção de uma vida em comum, numa democracia global. Por outro lado, “amultidão não pode jamais ser reduzida a uma unidade”. Mas acontece que um projeto é necessariamente tal unidade! Como resolver essa contradição?
Deixem-nos elaborar a questão da unidade de modo diferente.Um aspecto da reinvenção atual da democracia é a necessidade de destruir a separação entre a sociedade civil e o Estado ou, para dizê-lo em termos diferentes, a separação entre o social e o político. Esse é um projeto de longo prazo da tradição marxista, freqüentemente expresso na própria obra de Marx. Hoje, contudo, parecem finalmente existir as condições para destruir essa separação. As condições estão dadas pela própria natureza da crise contemporânea. De fato,a passagem à pós-modernidade política e o reconhecimento prático do biopoder e da biopolítica têm um papel-chave para ir além da separação burguesa entre social e político.Por um lado, o capital contemporâneo precisa seguir esse processo porque,na sua forma de biopoder, precisa explorar o social diretamente através do poder político. Por outro, o processo de formação da multidão está profundamente envolvido com a destruição dessa separação. Mas esse estreitamento pode acontecer de várias maneiras e isso não resulta necessariamente numa unidade. Na verdade, para a multidão não é essencial que isso resulte numa unidade. A multidão está engajada na produção de diferenças, invenções e modos de vida. Deve, assim, ocasionar uma explosão de singularidades. Essas singularidades são conectadas e coordenadas de acordo com um processo constitutivo sempre reiterado e aberto. Seria um contra-senso exigir que a multidão se torne a “sociedade civil”. Mas seria igualmente ridículo exigir que forme um partido ou qualquer estrutura fixa de organização. A multidão é a forma ininterrupta de relação aberta que as singularidades põem em movimento. Será que esse projeto é de fato uma enorme abstração? Não parece que seja, ao menos até o ponto em que um esquema imaginário racional não é abstrato quando responde à crise do sistema de autoridade vigente. O desejo vai naturalmente aonde está o perigo; a imaginação vai naturalmente ao âmago da crise. A imaginação da multidão predispõe as subjetividades para uma ação comum diante da crise. Mas o comum não é unidade, nem quando envolve resistência contra o
inimigo, nem quando implica a construção coletiva de terreno para a existência da pólis — em resumo, nem quando é “multidão contra”, nem quando é “multidão a favor”. “Multidão contra” significa resistência a forças que não desejam o comum, que o bloqueiam e o dissolvem, que o
separam e se reapropriam dele privadamente. “Multidão a favor”, pelo contrário, significa afirmação do comum em sua diversidade e em cada uma de suas expressões criativas. Se chamarmos isso de unidade, teremos de fazê-lo como unidade paradoxal, composta unicamente por diferenças. Mas essa formulação tende a reduzir e negar diferenças. Eis porque preferimos conceitos como multiplicidade e singularidade. O que vocês dizem sobre a unidade imposta a partir de dentro da multidão aproxima-se do que diríamos, mas continuamos convencidos de
que unidade é um conceito errado. Quem já viveu experiências de luta política e períodos de êxodo sabe que as articulações entre o “contra” e o “a favor”, constitutiva e ontologicamente reais e positivas, são criadas de dentro do próprio movimento. Até mesmo a vanguarda leninista (ou a imaginada por Lukács) não vem de fora, mas sobretudo de dentro do próprio movimento.
Por que unidade? Vocês parecem pensar que o único caminho para as forças de resistência desafiarem os poderes dominantes é se unir, mesmo que essa unificação contrarie nossos desejos de democracia, liberdade e singularidade. É uma concessão, vocês parecem dizer que lamentavelmente devemos aceitar em face das duras realidades do poder. Não estamos convencidos disso. De fato, mesmo que se aceite por um momento pensar apenas em termos de efetividade e suspender todos os desejos políticos, não acreditamos que a unidade seja a chave. Pensemos apenas em termos das atuais lutas políticas concretas de resistência. Seriam
realmente mais efetivas se estivessem unificadas? O poder de algumas delas não está diretamente ligado à diversidade interna e suas expressões de liberdade? Pelo conteúdo, aquilo que o conceito de multidão indica (e vemos isso emergir em movimentos por toda a parte) é uma
organização social definida pela capacidade de agir em conjunto sem qualquer unificação.
inimigo, nem quando implica a construção coletiva de terreno para a existência da pólis — em resumo, nem quando é “multidão contra”, nem quando é “multidão a favor”. “Multidão contra” significa resistência a forças que não desejam o comum, que o bloqueiam e o dissolvem, que o
separam e se reapropriam dele privadamente. “Multidão a favor”, pelo contrário, significa afirmação do comum em sua diversidade e em cada uma de suas expressões criativas. Se chamarmos isso de unidade, teremos de fazê-lo como unidade paradoxal, composta unicamente por diferenças. Mas essa formulação tende a reduzir e negar diferenças. Eis porque preferimos conceitos como multiplicidade e singularidade. O que vocês dizem sobre a unidade imposta a partir de dentro da multidão aproxima-se do que diríamos, mas continuamos convencidos de
que unidade é um conceito errado. Quem já viveu experiências de luta política e períodos de êxodo sabe que as articulações entre o “contra” e o “a favor”, constitutiva e ontologicamente reais e positivas, são criadas de dentro do próprio movimento. Até mesmo a vanguarda leninista (ou a imaginada por Lukács) não vem de fora, mas sobretudo de dentro do próprio movimento.
Por que unidade? Vocês parecem pensar que o único caminho para as forças de resistência desafiarem os poderes dominantes é se unir, mesmo que essa unificação contrarie nossos desejos de democracia, liberdade e singularidade. É uma concessão, vocês parecem dizer que lamentavelmente devemos aceitar em face das duras realidades do poder. Não estamos convencidos disso. De fato, mesmo que se aceite por um momento pensar apenas em termos de efetividade e suspender todos os desejos políticos, não acreditamos que a unidade seja a chave. Pensemos apenas em termos das atuais lutas políticas concretas de resistência. Seriam
realmente mais efetivas se estivessem unificadas? O poder de algumas delas não está diretamente ligado à diversidade interna e suas expressões de liberdade? Pelo conteúdo, aquilo que o conceito de multidão indica (e vemos isso emergir em movimentos por toda a parte) é uma
organização social definida pela capacidade de agir em conjunto sem qualquer unificação.
Para ler toda a entrevista acesse:
segunda-feira, 15 de outubro de 2007
O biscoito fino e a massa
Para os que acompanham o pensamento italiano contemporâno, cabem duas observações sobre Agamben:
1. Ele tem pouquíssima – se é que tem – relação com o chamado pensiero debole, o “pensamento frágil” associado a Gianni Vatimo, que celebra, de alguma forma, a queda dos universais como “pátria” e “Deus” e tenta armar, a partir daí, uma ética da precariedade. Não é essa a turma de Agamben.
2. Tem ele também pouquíssimo que ver com o marxismo obreirista italiano de figuras como Toni Negri que, a partir de uma leitura eufórica da globalização, enxergam o novo comunismo nos lugares mais insólitos, até no Bolsa Família de Lula.
Agamben é um pensador que propõe menos saídas, celebra menos, indica menos caminhos. Arrasta-se no pensar com um pouco menos de pressa. Meu livro favorito de Agamben é O que resta de Auschwitz: A Testemunha e o Arquivo (ainda inédito em português, acho), onde encontramos frases como :
A notícia atroz que os sobreviventes carregam dos campos para a terra dos seres humanos é precisamente a de que é possível perder a dignidade e a decência para além da imaginação, de que ainda há vida na degradação mais extrema. E que esse saber agora se torna a pedra de toque pela qual se medirá e se julgará toda moral e toda dignidade.
Para ler mais:
http://www.idelberavelar.com/archives/2007/05/giorgio_agamben.php
1. Ele tem pouquíssima – se é que tem – relação com o chamado pensiero debole, o “pensamento frágil” associado a Gianni Vatimo, que celebra, de alguma forma, a queda dos universais como “pátria” e “Deus” e tenta armar, a partir daí, uma ética da precariedade. Não é essa a turma de Agamben.
2. Tem ele também pouquíssimo que ver com o marxismo obreirista italiano de figuras como Toni Negri que, a partir de uma leitura eufórica da globalização, enxergam o novo comunismo nos lugares mais insólitos, até no Bolsa Família de Lula.
Agamben é um pensador que propõe menos saídas, celebra menos, indica menos caminhos. Arrasta-se no pensar com um pouco menos de pressa. Meu livro favorito de Agamben é O que resta de Auschwitz: A Testemunha e o Arquivo (ainda inédito em português, acho), onde encontramos frases como :
A notícia atroz que os sobreviventes carregam dos campos para a terra dos seres humanos é precisamente a de que é possível perder a dignidade e a decência para além da imaginação, de que ainda há vida na degradação mais extrema. E que esse saber agora se torna a pedra de toque pela qual se medirá e se julgará toda moral e toda dignidade.
Para ler mais:
http://www.idelberavelar.com/archives/2007/05/giorgio_agamben.php
Preferir o "uso" ao "exit" - viva Agamben
F. C.: Nos últimos anos, muitas das energias do pensamento sobre a resistência e a emancipação se concentraram em desenvolver uma teoria da defecção, do êxodo (por exemplo, penso em Toni Negri e Michael Hardt, Paolo Virno, Albert Hirschmann). Quer dizer, diante da expansão totalitária em escala global, parece haver uma aposta na negatividade, no silêncio e no exit. Qual a sua opinião sobre isto?
G. A.: Para dizer a verdade, não estou muito convencido de que o êxodo seja hoje um paradigma verdadeiramente praticável. O sentido desse paradigma é, por outro lado, solidário do paradigma do Império, com o qual forma sistema. A analogia com a história da relação entre vida monástica e o Império Romano nos primeiros séculos da era cristã é iluminadora. Também nessa época, fizeram frente a um poder global centralizado formas de êxodo organizado que deram vida às grandes ordens conventuais. A analogia com a situação descrita em um livro recente que teve muita sorte é evidente. Inclusive, às vezes, penso que Negri e Hardt têm perfeito equivalente em Eusebio Cesarea, o teólogo da corte de Constantino (que Overbeck definia ironicamente como o friser da peruca teológica do imperador). Eusebio é o primeiro cristão a teorizar sobre a superioridade do único poder imperial sobre o poder das diversas pessoas e nações. Ao único Deus nos céus corresponde um único império sobre a terra. A história das relações entre Igreja e Império Romano é uma mescla e uma alternância de êxodo e alianças, de rivalidade e negociatas. Contudo, a cidade celeste de Agostinho ainda é peregrina, quer dizer, está no êxodo mesmo quando está em seu próprio terreno. Não creio que tenha sentido aplicar hoje o mesmo modelo. O êxodo da vida monástica fundava-se de fato sobre uma radical heterogeneidade da forma de vida cristã e sobre uma sólida fé comum, apesar disso, não alcançou ser verdadeiramente antagonista. Hoje, o problema é que uma forma de vida verdadeiramente heterogênea não existe, ao menos nos países do capitalismo avançado. Nas condições presentes, o êxodo pode assumir somente formas subalternas e não é uma causalidade se termina pedindo ao inimigo imperial que lhe pague um salário. Está claro que uma vida separada de sua forma, uma vida que se deixa subjetivar como vida nua não estará em condições de construir uma alternativa ao império. O que não significa que não seja possível trazer do êxodo modelos e reflexões. Penso, por exemplo, nos conceitos franciscanos de uso e de forma de vida, que são ainda hoje extremamente interessantes.
Para ler a entrevista toda:
http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S0104-80232006000100011&script=sci_arttext
G. A.: Para dizer a verdade, não estou muito convencido de que o êxodo seja hoje um paradigma verdadeiramente praticável. O sentido desse paradigma é, por outro lado, solidário do paradigma do Império, com o qual forma sistema. A analogia com a história da relação entre vida monástica e o Império Romano nos primeiros séculos da era cristã é iluminadora. Também nessa época, fizeram frente a um poder global centralizado formas de êxodo organizado que deram vida às grandes ordens conventuais. A analogia com a situação descrita em um livro recente que teve muita sorte é evidente. Inclusive, às vezes, penso que Negri e Hardt têm perfeito equivalente em Eusebio Cesarea, o teólogo da corte de Constantino (que Overbeck definia ironicamente como o friser da peruca teológica do imperador). Eusebio é o primeiro cristão a teorizar sobre a superioridade do único poder imperial sobre o poder das diversas pessoas e nações. Ao único Deus nos céus corresponde um único império sobre a terra. A história das relações entre Igreja e Império Romano é uma mescla e uma alternância de êxodo e alianças, de rivalidade e negociatas. Contudo, a cidade celeste de Agostinho ainda é peregrina, quer dizer, está no êxodo mesmo quando está em seu próprio terreno. Não creio que tenha sentido aplicar hoje o mesmo modelo. O êxodo da vida monástica fundava-se de fato sobre uma radical heterogeneidade da forma de vida cristã e sobre uma sólida fé comum, apesar disso, não alcançou ser verdadeiramente antagonista. Hoje, o problema é que uma forma de vida verdadeiramente heterogênea não existe, ao menos nos países do capitalismo avançado. Nas condições presentes, o êxodo pode assumir somente formas subalternas e não é uma causalidade se termina pedindo ao inimigo imperial que lhe pague um salário. Está claro que uma vida separada de sua forma, uma vida que se deixa subjetivar como vida nua não estará em condições de construir uma alternativa ao império. O que não significa que não seja possível trazer do êxodo modelos e reflexões. Penso, por exemplo, nos conceitos franciscanos de uso e de forma de vida, que são ainda hoje extremamente interessantes.
Para ler a entrevista toda:
http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S0104-80232006000100011&script=sci_arttext
Entrevista com Giorgio Agamben - trecho
Revista do Departamento de Psicologia. UFF
Print ISSN 0104-8023
Rev. Dep. Psicol.,UFF vol.18 no.1 Niterói Jan./June 2006
F. C.: Você afirma que não há um retorno possível do estado de exceção em que vivemos imersos para o estado de direito. Que a tarefa que nos ocupa é, em todo caso, a de denunciar a ficção da articulação entre violência e direito, entre vida e norma, para abrir ali a cesura, o campo da política. Contudo, não nos devemos também uma teoria, não tanto do "poder constituinte" como da "instituição política", quer dizer, uma teoria sobre a "práxis articulatória" que inclua a politicidade do vivente como um elemento central?
G. A.: Precisamente porque se trata de romper o nexo entre violência e direito, o problema aqui é que devemos superar a falsa alternativa entre poder constituinte e poder constituído, entre a violência que instala o direito e a violência que o conserva. Porém, precisamente por isso me parece que não se trata tanto de "instituir" e de "articular", como de destruir e desarticular. Em geral, em nossa cultura o homem tem sido pensado sempre com a articulação e a conjunção dos princípios opostos: uma alma e um corpo, a linguagem e a vida, nesse caso um elemento político e um elemento vivente. Devemos, ao contrário, aprender a pensar o homem como aquele que resulta da desconexão desses dois elementos e investigar não o mistério metafísico da conjunção, mas o mistério prático e político da separação.
F. C.: A dinâmica de como desinstalar o instituído sem instituir ao mesmo tempo uma nova instituição remete certamente à idéia de revolução permanente. Pergunto-lhe não pelo "o que fazer?", mas sim até onde crê que é possível e desejável orientar-se na tentativa de pensar uma política "completamente nova"?
G. A.: Diria que o problema da revolução permanente é o de uma potência que não se desenvolve nunca em ato, e, ao contrário, sobrevive a ele e nele. Creio que seria extremamente importante chegar a pensar de um modo novo a relação entre a potência e o ato, o possível e o real. Não é o possível que exige ser realizado, mas é a realidade que exige tornar-se possível. Pensamento, práxis e imaginação (três coisas que jamais deveriam ser separadas) convergem nesse desafio comum: tornar possível a vida.
F. C.: No primeiro capítulo - de O Estado de exceção - você assinala que, em que pese a crescente conversão das democracias parlamentares em governamentais, e o aumento do "decisionismo" do poder executivo, os cidadãos ocidentais não registram essas mudanças e crêem seguir vivendo em democracias. Você tem uma hipótese sobre por que isso acontece? Caberia enfocar esse tema com base em uma teoria sobre a sujeição voluntária ao poder disciplinar (aquilo que Legendre chama "o modo em que o poder se faz amar")?
G. A.: O problema da sujeição voluntária coincide com aqueles processos de subjetivação sobre os quais trabalhava Foucault. Foucault mostrou, parece-me, que cada subjetivação implica a inserção em uma rede de relações de poder, nesse sentido uma microfísica do poder. Eu penso que tão interessantes como os processos de subjetivação são os processos de dessubjetivação. Se nós aplicamos também aqui a transformação das dicotomias em bipolaridades, poderemos dizer que o sujeito apresenta-se como um campo de forças percorrido por duas tensões que se opõem: uma que vai até a subjetivação e outra que procede em direção oposta. O sujeito não é outra coisa que o resto, a não-consciência desses dois processos. Está claro que serão as considerações estratégicas aquelas que decidirão, a cada momento, sobre qual pólo fazer a alavanca para desativar as relações de poder, de que modo fazer jogar a dessubjetivação contra a subjetivação e vice-versa. Letal é, por outro lado, toda política das identidades, ainda que se trate da identidade do contestatário e a do dissidente.
F. C.: Você afirma que "vida nua" e "norma" não são coisas preexistentes à máquina biopolítica, são um produto de sua articulação. Você poderia explicar isto? Porque é mais simples compreender que o direito foi "inventado", mas custa mais se desembaraçar da idéia de que os seres humanos somos, em algum sentido, "existências nuas", que pouco a pouco vamos aprovisionando-nos de nossas roupagens: língua, normas, hábitos...
G. A.: Aquilo que chamo vida nua é uma produção específica do poder e não um dado natural. Enquanto nos movimentarmos no espaço e retrocedermos no tempo, jamais encontraremos - nem sequer as condições mais primitivas - um homem sem linguagem e sem cultura. Nem sequer a criança é vida nua: ao contrário, vive em uma espécie de corte bizantina na qual cada ato está sempre já revestido de suas formas cerimoniais. Podemos, por outro lado, produzir artificialmente condições nas quais algo assim como uma vida nua se separa de seu contexto: o muçulmano em Auschwitz, a pessoa em estado de coma etc. É no sentido que eu dizia antes que é mais interessante indagar como se produz a desarticulação real do humano do que especular sobre como foi produzida uma articulação que, pelo o que sabemos, é um mitologema. O humano e o inumano são somente dois vetores no campo de força do vivente. E esse campo é integralmente histórico, se é verdade que se dá história de tudo aquilo de que se dá vida. Porém, nesse continuum vivente se podem produzir interrupções e cesuras: o "muçulmano" em Auschwitz e o testemunho que responde por ele são duas singularidades desse gênero.
Para ler toda a entrevista:
http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S0104-80232006000100011&script=sci_arttext
Print ISSN 0104-8023
Rev. Dep. Psicol.,UFF vol.18 no.1 Niterói Jan./June 2006
F. C.: Você afirma que não há um retorno possível do estado de exceção em que vivemos imersos para o estado de direito. Que a tarefa que nos ocupa é, em todo caso, a de denunciar a ficção da articulação entre violência e direito, entre vida e norma, para abrir ali a cesura, o campo da política. Contudo, não nos devemos também uma teoria, não tanto do "poder constituinte" como da "instituição política", quer dizer, uma teoria sobre a "práxis articulatória" que inclua a politicidade do vivente como um elemento central?
G. A.: Precisamente porque se trata de romper o nexo entre violência e direito, o problema aqui é que devemos superar a falsa alternativa entre poder constituinte e poder constituído, entre a violência que instala o direito e a violência que o conserva. Porém, precisamente por isso me parece que não se trata tanto de "instituir" e de "articular", como de destruir e desarticular. Em geral, em nossa cultura o homem tem sido pensado sempre com a articulação e a conjunção dos princípios opostos: uma alma e um corpo, a linguagem e a vida, nesse caso um elemento político e um elemento vivente. Devemos, ao contrário, aprender a pensar o homem como aquele que resulta da desconexão desses dois elementos e investigar não o mistério metafísico da conjunção, mas o mistério prático e político da separação.
F. C.: A dinâmica de como desinstalar o instituído sem instituir ao mesmo tempo uma nova instituição remete certamente à idéia de revolução permanente. Pergunto-lhe não pelo "o que fazer?", mas sim até onde crê que é possível e desejável orientar-se na tentativa de pensar uma política "completamente nova"?
G. A.: Diria que o problema da revolução permanente é o de uma potência que não se desenvolve nunca em ato, e, ao contrário, sobrevive a ele e nele. Creio que seria extremamente importante chegar a pensar de um modo novo a relação entre a potência e o ato, o possível e o real. Não é o possível que exige ser realizado, mas é a realidade que exige tornar-se possível. Pensamento, práxis e imaginação (três coisas que jamais deveriam ser separadas) convergem nesse desafio comum: tornar possível a vida.
F. C.: No primeiro capítulo - de O Estado de exceção - você assinala que, em que pese a crescente conversão das democracias parlamentares em governamentais, e o aumento do "decisionismo" do poder executivo, os cidadãos ocidentais não registram essas mudanças e crêem seguir vivendo em democracias. Você tem uma hipótese sobre por que isso acontece? Caberia enfocar esse tema com base em uma teoria sobre a sujeição voluntária ao poder disciplinar (aquilo que Legendre chama "o modo em que o poder se faz amar")?
G. A.: O problema da sujeição voluntária coincide com aqueles processos de subjetivação sobre os quais trabalhava Foucault. Foucault mostrou, parece-me, que cada subjetivação implica a inserção em uma rede de relações de poder, nesse sentido uma microfísica do poder. Eu penso que tão interessantes como os processos de subjetivação são os processos de dessubjetivação. Se nós aplicamos também aqui a transformação das dicotomias em bipolaridades, poderemos dizer que o sujeito apresenta-se como um campo de forças percorrido por duas tensões que se opõem: uma que vai até a subjetivação e outra que procede em direção oposta. O sujeito não é outra coisa que o resto, a não-consciência desses dois processos. Está claro que serão as considerações estratégicas aquelas que decidirão, a cada momento, sobre qual pólo fazer a alavanca para desativar as relações de poder, de que modo fazer jogar a dessubjetivação contra a subjetivação e vice-versa. Letal é, por outro lado, toda política das identidades, ainda que se trate da identidade do contestatário e a do dissidente.
F. C.: Você afirma que "vida nua" e "norma" não são coisas preexistentes à máquina biopolítica, são um produto de sua articulação. Você poderia explicar isto? Porque é mais simples compreender que o direito foi "inventado", mas custa mais se desembaraçar da idéia de que os seres humanos somos, em algum sentido, "existências nuas", que pouco a pouco vamos aprovisionando-nos de nossas roupagens: língua, normas, hábitos...
G. A.: Aquilo que chamo vida nua é uma produção específica do poder e não um dado natural. Enquanto nos movimentarmos no espaço e retrocedermos no tempo, jamais encontraremos - nem sequer as condições mais primitivas - um homem sem linguagem e sem cultura. Nem sequer a criança é vida nua: ao contrário, vive em uma espécie de corte bizantina na qual cada ato está sempre já revestido de suas formas cerimoniais. Podemos, por outro lado, produzir artificialmente condições nas quais algo assim como uma vida nua se separa de seu contexto: o muçulmano em Auschwitz, a pessoa em estado de coma etc. É no sentido que eu dizia antes que é mais interessante indagar como se produz a desarticulação real do humano do que especular sobre como foi produzida uma articulação que, pelo o que sabemos, é um mitologema. O humano e o inumano são somente dois vetores no campo de força do vivente. E esse campo é integralmente histórico, se é verdade que se dá história de tudo aquilo de que se dá vida. Porém, nesse continuum vivente se podem produzir interrupções e cesuras: o "muçulmano" em Auschwitz e o testemunho que responde por ele são duas singularidades desse gênero.
Para ler toda a entrevista:
http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S0104-80232006000100011&script=sci_arttext
Mais uma porrada!
Essa veio da Gabriela Schuler. Transcrevo a prova de Realidade Brasileira que ela inventou. Eu adorei....
O adulto do futuro
A mulher acordou. O dia estava lindo, o céu azul, a paisagem exuberante era o que ela via da janela do hotel. Estava viajando a negócios, no Japão, há duas semanas. Não tinha que trabalhar neste dia então ela resolveu ir às compras. Na verdade, ela não estava necessitando de nada em específico, mas, sentia um chamado interior que dizia “vamos dar uma olhadinha nas vitrines e passar o tempo”. Doce ilusão...
O shopping era uma coisa de louco, oito andares de pura magia. Um mundo criado para despertar desejos nas pessoas. Os andares eram divididos em departamentos especializados conforme o tipo de produto que comercializavam. Produtos para turistas, crianças, idosos, gestantes, mulheres, homens, negros, brancos, amarelos, intelectuais, malucos, magros, gordos, etc. Uma infinidade de opções. Ela nunca tinha visto nada parecido, ficou por algum tempo meio perdida naquela “torre de babel”.
“E agora José”... pra que lado eu vou? Para qualquer lado que se olhasse, havia pessoas circulando com suas sacolas, bolsas, caixas, carrinhos. O quê e por que elas estavam comprando tanta coisa?
Havia uma senhora, visivelmente de origem indiana, comprando compulsivamente, camisetas da marca Coca-Cola. Ela já havia escolhido umas vinte, quando descobriu que, o último lançamento eram as camisetas “Guaraná da Amazônia”. Resolveu pegar umas cinco, afinal de contas, ela também se preocupava com o meio ambiente. Sentia que desta forma estava, indiretamente, resolvendo um pouco os problemas da água no seu país de origem. Incrível como ainda tem gente que acredita que o consumo é coisa de gente alienada.
Após algum tempo perambulando pelo shopping, a mulher resolveu sentar um pouco na praça de alimentação. Um menino japonês, de mais ou menos uns 15 anos, apareceu na sua frente oferecendo os principais jornais brasileiros daquele dia. Como ele havia a encontrado naquele mar de gente, ela não fazia a menor idéia... coisas da tecnologia japonesa. Ela comprou dois.
O Brasil estava bem. A economia andava “de vento em popa”. O país se desenvolvia economicamente como nunca antes na história. O povo tinha uma vida digna e confortável. A saúde e a educação eram as principais metas do governo depois da nova fonte de energia lisarb plus (lisarb é brasil ao contrário), descoberta por estudantes de engenharia ambiental da Faesa, há três décadas.
No Brasil, o Caderno de Empregos, não existia mais. Também não existiam mais os ambientalistas. Não precisava. Assim como desapareceram os abolicionistas com o fim da escravidão, não havia mais ambientalistas sem problemas desta natureza para combater.
Terminada sua leitura, a mulher pensou: “mas o que eu vim fazer aqui afinal?”, “Pra qual destes departamento eu vou?”, “Já sei! Vou para o andar de estética. Dizem que os japoneses tem umas técnicas incríveis nessa área”.
E assim ela fez. Foi para lá, fez clareamento nos dentes e na pele. Alisou os cabelos com laser. Fez uma tatuagem atrás da orelha. Tomou uma pílulas rejuvenecedoras, e por último, fez uma pequena intervenção cirúrgica de mudança de sexo.
Agora sim, podia voltar ao Brasil. Apesar da situação econômica, educacional, ambiental e de saúde estarem resolvidas, ainda era mais fácil ser feliz como homem, jovem, branco, de cabelo liso e com belos dentes. Agora só precisava encontrar aquele rapaz japonês que havia lhe vendido o jornal. Ele tinha o sistema para fazer a mudança de nome e sexo no seu passaporte. Era só uma questão de corrigir o que está escrito no papel. Mesmo ela estando visivelmente “transformada”, a força da palavra escrita ainda é maior do que as aparências.
Comentário
É mais fácil mudar as aparências através de tratamentos estéticos ou na forma de consumir produtos carregados de simbologia, do que mudar mentalidades. A forma de consumo das pessoas demonstra isso. Ao consumirmos, estamos procurando formas de nos reinventar, de nos adaptar ao que está sendo valorizado pela mídia naquela época.
A mídia e a ciência fortalecem crenças em realidades inventadas por eles mesmos. Um exemplo disso, é o recorte de uma notícia veiculada pelo jornal A Tribuna sobre o corpo perfeito. Perfeito pra quem?
O adulto do futuro
A mulher acordou. O dia estava lindo, o céu azul, a paisagem exuberante era o que ela via da janela do hotel. Estava viajando a negócios, no Japão, há duas semanas. Não tinha que trabalhar neste dia então ela resolveu ir às compras. Na verdade, ela não estava necessitando de nada em específico, mas, sentia um chamado interior que dizia “vamos dar uma olhadinha nas vitrines e passar o tempo”. Doce ilusão...
O shopping era uma coisa de louco, oito andares de pura magia. Um mundo criado para despertar desejos nas pessoas. Os andares eram divididos em departamentos especializados conforme o tipo de produto que comercializavam. Produtos para turistas, crianças, idosos, gestantes, mulheres, homens, negros, brancos, amarelos, intelectuais, malucos, magros, gordos, etc. Uma infinidade de opções. Ela nunca tinha visto nada parecido, ficou por algum tempo meio perdida naquela “torre de babel”.
“E agora José”... pra que lado eu vou? Para qualquer lado que se olhasse, havia pessoas circulando com suas sacolas, bolsas, caixas, carrinhos. O quê e por que elas estavam comprando tanta coisa?
Havia uma senhora, visivelmente de origem indiana, comprando compulsivamente, camisetas da marca Coca-Cola. Ela já havia escolhido umas vinte, quando descobriu que, o último lançamento eram as camisetas “Guaraná da Amazônia”. Resolveu pegar umas cinco, afinal de contas, ela também se preocupava com o meio ambiente. Sentia que desta forma estava, indiretamente, resolvendo um pouco os problemas da água no seu país de origem. Incrível como ainda tem gente que acredita que o consumo é coisa de gente alienada.
Após algum tempo perambulando pelo shopping, a mulher resolveu sentar um pouco na praça de alimentação. Um menino japonês, de mais ou menos uns 15 anos, apareceu na sua frente oferecendo os principais jornais brasileiros daquele dia. Como ele havia a encontrado naquele mar de gente, ela não fazia a menor idéia... coisas da tecnologia japonesa. Ela comprou dois.
O Brasil estava bem. A economia andava “de vento em popa”. O país se desenvolvia economicamente como nunca antes na história. O povo tinha uma vida digna e confortável. A saúde e a educação eram as principais metas do governo depois da nova fonte de energia lisarb plus (lisarb é brasil ao contrário), descoberta por estudantes de engenharia ambiental da Faesa, há três décadas.
No Brasil, o Caderno de Empregos, não existia mais. Também não existiam mais os ambientalistas. Não precisava. Assim como desapareceram os abolicionistas com o fim da escravidão, não havia mais ambientalistas sem problemas desta natureza para combater.
Terminada sua leitura, a mulher pensou: “mas o que eu vim fazer aqui afinal?”, “Pra qual destes departamento eu vou?”, “Já sei! Vou para o andar de estética. Dizem que os japoneses tem umas técnicas incríveis nessa área”.
E assim ela fez. Foi para lá, fez clareamento nos dentes e na pele. Alisou os cabelos com laser. Fez uma tatuagem atrás da orelha. Tomou uma pílulas rejuvenecedoras, e por último, fez uma pequena intervenção cirúrgica de mudança de sexo.
Agora sim, podia voltar ao Brasil. Apesar da situação econômica, educacional, ambiental e de saúde estarem resolvidas, ainda era mais fácil ser feliz como homem, jovem, branco, de cabelo liso e com belos dentes. Agora só precisava encontrar aquele rapaz japonês que havia lhe vendido o jornal. Ele tinha o sistema para fazer a mudança de nome e sexo no seu passaporte. Era só uma questão de corrigir o que está escrito no papel. Mesmo ela estando visivelmente “transformada”, a força da palavra escrita ainda é maior do que as aparências.
Comentário
É mais fácil mudar as aparências através de tratamentos estéticos ou na forma de consumir produtos carregados de simbologia, do que mudar mentalidades. A forma de consumo das pessoas demonstra isso. Ao consumirmos, estamos procurando formas de nos reinventar, de nos adaptar ao que está sendo valorizado pela mídia naquela época.
A mídia e a ciência fortalecem crenças em realidades inventadas por eles mesmos. Um exemplo disso, é o recorte de uma notícia veiculada pelo jornal A Tribuna sobre o corpo perfeito. Perfeito pra quem?
Vamos desligar o foda-se?
Amigos, quero compartilhar com vocês um trecho da prova da minha aluna Jussara Martins. Um texto do tipo "supapo no cognitivo", como gosta o Tom Zé.
Sabe quando mastiga e não percebe? Quando você está olhando para o nada? Quando as pessoas passam e você não vê? É a vida ligada no piloto automático. A mil por hora, correndo o risco de bater no primeiro poste ou no primeiro, não sei, pode ser qualquer lugar que cause um “belo” estrago. Nossa vida é assim, às vezes ligada no “piloto automático”, mastigamos tudo sem perceber e colocamos para fora toda “merda” que algum dia engolimos, ou nos foi enfiada goela abaixo.
É assim que a mídia faz conosco. É assim que fazemos com a mídia. Ela não funciona sozinha, portanto é um reflexo de nossas atitudes, reproduz nossas ações e no final estamos fazendo com que muitos passem a frente e esfreguem na cara de todos a tal da “merda” midiática. Produzida por nós, “humanos” éticos e pensadores.
É isso aí!
Sabe quando mastiga e não percebe? Quando você está olhando para o nada? Quando as pessoas passam e você não vê? É a vida ligada no piloto automático. A mil por hora, correndo o risco de bater no primeiro poste ou no primeiro, não sei, pode ser qualquer lugar que cause um “belo” estrago. Nossa vida é assim, às vezes ligada no “piloto automático”, mastigamos tudo sem perceber e colocamos para fora toda “merda” que algum dia engolimos, ou nos foi enfiada goela abaixo.
É assim que a mídia faz conosco. É assim que fazemos com a mídia. Ela não funciona sozinha, portanto é um reflexo de nossas atitudes, reproduz nossas ações e no final estamos fazendo com que muitos passem a frente e esfreguem na cara de todos a tal da “merda” midiática. Produzida por nós, “humanos” éticos e pensadores.
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