Essa veio da Gabriela Schuler. Transcrevo a prova de Realidade Brasileira que ela inventou. Eu adorei....
O adulto do futuro
A mulher acordou. O dia estava lindo, o céu azul, a paisagem exuberante era o que ela via da janela do hotel. Estava viajando a negócios, no Japão, há duas semanas. Não tinha que trabalhar neste dia então ela resolveu ir às compras. Na verdade, ela não estava necessitando de nada em específico, mas, sentia um chamado interior que dizia “vamos dar uma olhadinha nas vitrines e passar o tempo”. Doce ilusão...
O shopping era uma coisa de louco, oito andares de pura magia. Um mundo criado para despertar desejos nas pessoas. Os andares eram divididos em departamentos especializados conforme o tipo de produto que comercializavam. Produtos para turistas, crianças, idosos, gestantes, mulheres, homens, negros, brancos, amarelos, intelectuais, malucos, magros, gordos, etc. Uma infinidade de opções. Ela nunca tinha visto nada parecido, ficou por algum tempo meio perdida naquela “torre de babel”.
“E agora José”... pra que lado eu vou? Para qualquer lado que se olhasse, havia pessoas circulando com suas sacolas, bolsas, caixas, carrinhos. O quê e por que elas estavam comprando tanta coisa?
Havia uma senhora, visivelmente de origem indiana, comprando compulsivamente, camisetas da marca Coca-Cola. Ela já havia escolhido umas vinte, quando descobriu que, o último lançamento eram as camisetas “Guaraná da Amazônia”. Resolveu pegar umas cinco, afinal de contas, ela também se preocupava com o meio ambiente. Sentia que desta forma estava, indiretamente, resolvendo um pouco os problemas da água no seu país de origem. Incrível como ainda tem gente que acredita que o consumo é coisa de gente alienada.
Após algum tempo perambulando pelo shopping, a mulher resolveu sentar um pouco na praça de alimentação. Um menino japonês, de mais ou menos uns 15 anos, apareceu na sua frente oferecendo os principais jornais brasileiros daquele dia. Como ele havia a encontrado naquele mar de gente, ela não fazia a menor idéia... coisas da tecnologia japonesa. Ela comprou dois.
O Brasil estava bem. A economia andava “de vento em popa”. O país se desenvolvia economicamente como nunca antes na história. O povo tinha uma vida digna e confortável. A saúde e a educação eram as principais metas do governo depois da nova fonte de energia lisarb plus (lisarb é brasil ao contrário), descoberta por estudantes de engenharia ambiental da Faesa, há três décadas.
No Brasil, o Caderno de Empregos, não existia mais. Também não existiam mais os ambientalistas. Não precisava. Assim como desapareceram os abolicionistas com o fim da escravidão, não havia mais ambientalistas sem problemas desta natureza para combater.
Terminada sua leitura, a mulher pensou: “mas o que eu vim fazer aqui afinal?”, “Pra qual destes departamento eu vou?”, “Já sei! Vou para o andar de estética. Dizem que os japoneses tem umas técnicas incríveis nessa área”.
E assim ela fez. Foi para lá, fez clareamento nos dentes e na pele. Alisou os cabelos com laser. Fez uma tatuagem atrás da orelha. Tomou uma pílulas rejuvenecedoras, e por último, fez uma pequena intervenção cirúrgica de mudança de sexo.
Agora sim, podia voltar ao Brasil. Apesar da situação econômica, educacional, ambiental e de saúde estarem resolvidas, ainda era mais fácil ser feliz como homem, jovem, branco, de cabelo liso e com belos dentes. Agora só precisava encontrar aquele rapaz japonês que havia lhe vendido o jornal. Ele tinha o sistema para fazer a mudança de nome e sexo no seu passaporte. Era só uma questão de corrigir o que está escrito no papel. Mesmo ela estando visivelmente “transformada”, a força da palavra escrita ainda é maior do que as aparências.
Comentário
É mais fácil mudar as aparências através de tratamentos estéticos ou na forma de consumir produtos carregados de simbologia, do que mudar mentalidades. A forma de consumo das pessoas demonstra isso. Ao consumirmos, estamos procurando formas de nos reinventar, de nos adaptar ao que está sendo valorizado pela mídia naquela época.
A mídia e a ciência fortalecem crenças em realidades inventadas por eles mesmos. Um exemplo disso, é o recorte de uma notícia veiculada pelo jornal A Tribuna sobre o corpo perfeito. Perfeito pra quem?
segunda-feira, 15 de outubro de 2007
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