quinta-feira, 1 de novembro de 2007

Contra a violência o biopoder

CABRAL APÓIA ABORTO E DIZ QUE FAVELA É FÁBRICA DE MARGINAL
Folha de S. Paulo
25/10/2007

Para o governador do Rio, interrupção da gravidez está relacionada à redução da violência Para ele, rede pública teria de oferecer condições, já que mulheres de melhor poder aquisitivo acabam pagando por procedimento
O governador do Rio, Sérgio Cabral, afirmou que as taxas de fertilidade de mães faveladas são uma "fábrica de produzir marginal". Segundo ele, parte dessas mulheres produz crianças "sem estrutura, sem conforto familiar e material". Cabral disse lamentar o fato de essas mães não receberem orientação dos órgãos oficiais "em questões de planejamento familiar".
O governador do Rio de Janeiro, Sérgio Cabral Filho (PMDB), pai de cinco filhos, defendeu ontem a legalização do aborto como forma de conter a violência no Estado e afirmou que as taxas de fertilidade de mães faveladas são uma "fábrica de produzir marginal".Segundo o governador, 44, existem "dois brasis", um de padrão de países nórdicos, como a Suécia, e outro com nível de pobreza comparável a países miseráveis africanos."Não tenho a menor dúvida de que o aborto [como política pública] pode conter a violência. Eu particularmente não sou a favor do aborto", declarou ontem em encontro de agentes de viagem na Barra da Tijuca.De acordo com Cabral, parte das mães moradoras de áreas carentes "estão produzindo crianças, sem estrutura, sem conforto familiar e material". Ele disse lamentar o fato de essas mulheres não receberem "orientação do governo em questões de planejamento familiar" dos órgãos de saúde.


Comentário:

Ou seja, em nome da segurança se justifica e se legitima a tentativa de controlar a vida das pessoas, operando por meio de classificações, hierarquizações e prescrições. Dessa forma, o governador se sente no direito e no dever de regular a fecundidade das mulheres pobres, controlar as taxas de crescimento das populações das favelas e, ao mesmo tempo, estabelecer as possibilidades futuras das crianças faveladas. Pior do que o preconceito e o equivoco em relação a taxa de fecundicade nas favelas cariocas, é fazer da segurança "o princípio básico da atividade do Estado" (Agamben).

Como afirmam Negri e Hardt em Multidão, "se a guerra já não é uma situação excepcional, mas o estado normal das coisas, vale dizer, se entramos agora num estado perpétuo de guerra, torna-se necessário que a guerra não seja uma ameaça a atual estrutura de poder, nem uma força desestabilizadora, e sim, pelo contrário, um mecanismo ativo que esteja constantemente criando e reforçando a atual ordem global. (...) Em outras palvras, a aplicação coordenada e constante da violência torna-se condição necessária para a disciplina e o controle. Para que possa desempenhar este papel social e político fundamental, a guerra deve ser capaz de desempenhar uma função constituinte ou reguladora: terá de tornar-se ao mesmo tempo um atividade processual e uma atividade reguladora, de ordenação, criando e mantendo hierarquias sociais, uma forma de biopoder voltada para a promoção e a regulação da vida social" (2005: 43-44).


Um comentário:

Anônimo disse...

Saídas milagrosas continuam em pauta.É a escola que vai salvar e resolver o problema social de crianças e jovens; é o "tempo integral" na escola que vai fazer com que se reduzam os altos índices de violência; é o/a professor/a que vai resolver sozinho a questão da aprendizem das crinças brasileiras..., agora é a institucionalização do aborto para as mulheres pobres que vai reduzir a criminalidade e a violência...
Está passando da hora de sentirmos (e vivermos)a presença do estado na garantia de políticas públicas mais justas,que assegurem condição de uma vida digna para as pessoas, sejam elas pobres ou não. Quem foi que disse que são as crianças e adolescentes pobres - que apesar das mazelas sociais as quais estão submetidos - estão matando índios, avós, pais, domésticas, prostitutas, gays...

Pensar no biopoder é também pensar na produção e reprodução da própria vida. usando Hardt e Negri (2005) no Império, "é isso (o biopoder) que apresenta o poder como alternativa em toda esfera da vida e da morte, da fartura e da pobreza, da produção e da reprodução social, e assim por diante". Se é assim mesmo, podemos sonhar com outras formas de vida em sociedade.