Nas sociedades contemporâneas ocidentais, a prática da parrhêsia “se transformou na prática da confissão, a relação institucionalizada com o confessor ou com o psicanalista substituiu a relação de amizade” (Ortega 1999, p. 162), contribuindo para o esvaziamento da vida pública e para a privatização dos afetos, assim como para o revigoramento de uma visão familialista das relações dos homens entre si. Foucault se posiciona decididamente contra esta linha de força que influi no esvaziamento da micropolítica, fornecendo pistas para se pensar e viver novas formas relacionais e de comunidade, e por que não dizer, de praticar a psicanálise, pois que seu pensamento evolui com base numa perspectiva da intersubjetividade comprometida com a produção de bens comuns, mas não universalizáveis. Uma das formas relacionais para as quais Foucault (1994) chama atenção é a amizade. Esta, à medida que relacionada à incitação para uma luta que compreende questões que afetam a existência de todo indivíduo, é compreendida como voltada para impulsionar uma autotransformação considerada indispensável. Expressão do laço social tanto quanto do afetivo, a amizade é também relacionada por Foucault a um processo de natureza agonística, sempre passível de gerar dor e até chegar a um limite, posto que necessariamente norteado pela verdade, concebida também como sempre passível de ser retificada.
Conhecer a verdade, antes de qualquer coisa, dizer a verdade e praticar a verdade, se norteando sempre por afetos experimentados de forma livre, sem que se prescinda da escuta e da consideração dirigidas ao outro, se constitui na arte da existência que o pensamento de Foucault (1994) sugere ser importante no contexto da contemporaneidade, situando-a como uma sublimação necessária – ao mesmo tempo em que uma “prática de liberdade” – ao risco de perda envolvido em relações de amizade de natureza agonística. Por isso, em consonância com seu pensamento, Ortega argumenta, com muita propriedade, que “o espaço da amizade é o espaço entre os indivíduos, do mundo compartilhado – espaço de liberdade e de risco –, das ruas, das praças, dos passeios, dos teatros, dos cafés, e não o espaço de nossos condomínios fechados e nossos shopping centers” (Ortega, 2002, p. 161-162). O espaço da amizade não comporta, portanto, a dominação exercida pelo valor – muitas vezes preconizado – da lealdade compulsória ao outro. Cabe aqui acrescentar que o espaço da amizade, assim concebido, também não comporta uma perspectiva ancorada na suspeita e na desconfiança de que nem tudo é sabido ou dito, ou numa suspeita para com o desconhecido considerado como fonte de artimanhas, por se acreditar que a verdade fundamental só possa advir de um inconsciente que surpreende no mais das vezes de modo perigoso.
Luiz Ricardo Prado de Oliveira
http://spcrj.org.br/artigos/artigos_outubro_setting.htm
sexta-feira, 9 de novembro de 2007
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